Introdução
No vasto panteão de tragédias que compõem o mosaico narrativo de One Piece, raras são as histórias que cortam tão profundamente a alma humana quanto a de Portgas D. Ace. Enquanto a grande maioria dos piratas que desbrava a Grand Line é movida pela promessa de riquezas incalculáveis, pelo fascínio magnético de aventuras inexploradas ou pela ambição brutal e desenfreada por poder e dominação, a jornada de Ace foi forjada em uma fornalha muito mais silenciosa e dolorosa. Ele não zarpou para os mares turbulentos do Novo Mundo em busca da coroa de Rei dos Piratas, tampouco ansiou por desvendar os mistérios do Século Perdido que descansam em Laugh Tale. A bússola que guiava o Punhos de Fogo nunca apontou para o ouro, mas sim para uma resposta essencialmente humana e excruciantemente solitária: a validação de sua própria existência. Desde o momento de seu primeiro choro até seu último suspiro no campo de batalha banhado em sangue de Marineford, Ace esteve preso em um purgatório psicológico, esmagado sob a imensa, sufocante e implacável sombra do homem que lhe deu o sangue, mas nunca um abraço: Gol D. Roger, o Rei dos Piratas.
A tragédia de Portgas D. Ace não é meramente a de um guerreiro que tombou em combate. É a crônica melancólica de um menino que internalizou o ódio do mundo inteiro e acreditou, com todas as fibras de seu ser, que seu nascimento havia sido um erro, um crime imperdoável contra a própria natureza. Esta vasta e imersiva exploração mergulha no abismo das chamas sombrias que queimavam o coração de Ace, dissecando o impacto de sua linhagem amaldiçoada, a ilusão de liberdade sob a tutela afetuosa de Edward Newgate, o Barba Branca, e o sacrifício monumental que cimentou seu legado, não como o Rei dos Piratas, mas como o irmão mais velho que incendiou o alvorecer da Nova Era.
Capítulo 1: O Espectro do Rei e a Maldição Inerente ao Sangue
No universo de Eiichiro Oda, a linhagem sanguínea e o conceito da vontade herdada são forças motrizes absolutas. O 'D' carrega consigo o peso de tempestades e a fúria das marés. No entanto, para Ace, o sangue que corria em suas veias não era visto como um presente de coragem, mas como um veneno incurável, uma maldição biológica que ele jamais pediu. Gol D. Roger foi o homem que conquistou tudo — fama, riqueza, poder e os oceanos — mas, para o mundo civilizado e para o Governo Mundial, ele encarnava o demônio supremo, a raiz de todos os males e a personificação do caos.
Quando Portgas D. Rouge segurou Ace em seu ventre por incríveis e agonizantes vinte meses, através de uma força de vontade puramente sobre-humana e maternal, ela o fez para protegê-lo da purga impiedosa da Marinha, que assassinava crianças e grávidas apenas sob a suspeita de abrigarem o legado do Rei. O nascimento de Ace já estava encharcado em sangue inocente, paranoia e perseguição. Rouge sacrificou a própria vida e suas últimas centelhas de energia no momento do parto para dar ao filho a chance mínima de respirar. Assim, o primeiro fardo psíquico de Ace foi a morte de sua mãe — o sacrifício supremo que marcou o início de sua existência terrena. O menino nasceu do luto, sem pais, e sob os cuidados de um herói da Marinha, Monkey D. Garp, cujo dever institucional conflituava diretamente com a promessa feita ao seu maior rival.
Crescendo em segredo, escondido sob a vastidão das montanhas Corvo no Reino de Goa, o jovem Ace não conheceu contos de fadas. Em vez de ouvir histórias heroicas sobre seu pai, ele frequentemente visitava as tavernas clandestinas e vielas escuras, sentando-se em silêncio nas sombras, apenas para perguntar aos bêbados e bandidos o que achavam que aconteceria se Gol D. Roger tivesse deixado um filho. As respostas eram de uma atrocidade visceral, uma sinfonia unânime de asco. As pessoas comuns — cidadãos, comerciantes e malfeitores — fantasiavam sobre as maneiras mais horrendas e brutais de torturar e assassinar a prole do demônio. Eles diziam que se o filho de Roger existisse, ele deveria ser empalado com agulhas incandescentes, que deveria ser odiado pelo próprio sol, que seu sangue era imundo e que ele não merecia respirar o mesmo ar que os justos.
Essas palavras não eram apenas insultos proferidos em estado de embriaguez; eram navalhas cravadas no peito de uma criança ainda incapaz de compreender o conceito de culpa por associação. Ace absorveu o ódio sistêmico do mundo e o converteu em autofagia emocional. Ele se olhava no espelho dos rios e não via uma criança com um futuro promissor, mas a encarnação do mal, um demônio cuja mera respiração era uma ofensa à humanidade. O Rei dos Piratas, celebrado por sua tripulação e por românticos do mar, era, para Ace, o carrasco invisível que aprisionara seu filho num abismo de auto-rejeição antes mesmo de ele aprender a falar. Essa é a base de toda a neurose de Ace: a crença profundamente enraizada e paralisante de que ele era fundamentalmente indigno da vida, que seu ser era um pecado que o mundo desejava desesperadamente expurgar.
Capítulo 2: A Irmandade do Desespero no Terminal Cinza
A evolução emocional de Ace encontrou seu primeiro porto seguro nas montanhas infestadas de bandidos e nas pilhas de lixo em chamas do Gray Terminal (Terminal Cinza). Ali, longe das garras polidas da nobreza repulsiva e dos marinheiros engravatados, Ace conheceu Sabo, um nobre fugitivo que desprezava suas origens abastadas tanto quanto Ace repudiava as suas maldições, e posteriormente, Monkey D. Luffy, a personificação indomável do otimismo inconsequente.
A dinâmica entre os três meninos é uma das passagens mais sublimes e poéticas de One Piece. Ace repelia Luffy violentamente no início, submetendo o garoto de borracha a testes de sobrevivência excruciantes, na esperança de afastá-lo. Ace não queria ser amado, pois o amor era incongruente com a sua autoimagem deformada pelo ódio do mundo. Ele acreditava que, invariavelmente, qualquer pessoa que se aproximasse demais acabaria o odiando assim que descobrisse a heresia em seu sangue. Porém, a recusa obstinada de Luffy em abandonar Ace, mesmo sob a ameaça de tortura imposta pelo bando pirata de Porchemy, rachou a espessa crosta de gelo ao redor do coração do jovem Portgas. Quando Ace perguntou a Luffy por que o garoto insistia em segui-lo em meio a tantos maus-tratos, a resposta de Luffy foi dolorosamente simples, mas transcendental: 'Se eu não estiver com você, ficarei sozinho... E ficar sozinho dói mais do que me machucar.'
Para Ace, que secretamente gritava na escuridão sob o silêncio de que já estava completamente sozinho no universo, a necessidade crua de Luffy tornou-se seu primeiro propósito. A irmandade consolidada no brinde de saké com Sabo e Luffy foi o único escudo protetor que Ace teve contra o veneno do mundo. Quando o Terminal Cinza foi consumido em chamas orquestradas pelos nobres em seu delírio elitista, e após a suposta morte trágica de Sabo pelas mãos de um Dragão Celestial, Ace endureceu ainda mais. Ele jurou, sobre o mar e sobre a memória do irmão 'morto', que jamais viveria com arrependimentos. Ele precisava tornar-se forte o suficiente, violento o suficiente e implacável o suficiente para proteger Luffy. O amor por seus irmãos tornou-se a primeira desculpa que Ace arranjou para justificar sua continuação existencial; ele não vivia por si mesmo, mas para ser a espada e o escudo daquele irmão chorão que sobrou.
Capítulo 3: O Oceano Solitário e o Fogo Selvagem
Aos dezessete anos, Ace içou as velas antes de Luffy, iniciando a jornada dos Piratas Spade. Ele consumiu a Mera Mera no Mi (Fruta das Chamas), uma das Logias mais letais do mundo. A escolha metafórica desse poder não é acidental. O fogo consome, destrói, clareia e arde descontroladamente, necessitando de combustível para existir; é poderoso, mas inerentemente autodestrutivo e solitário em sua fúria isolada. Ace tornou-se o Supernova mais promissor e procurado de sua geração, rejeitando convites para se juntar aos Shichibukai e buscando a fama de forma quase compulsiva.
Contudo, essa busca obstinada por reconhecimento e força escondia um vazio intransponível. Ao mirar a cabeça do homem mais forte do mundo, Edward Newgate, o Barba Branca, Ace estava, no fundo, procurando uma morte honrosa que pudesse calar o monstro interior que sussurrava que ele não deveria existir. Ele queria desafiar o ápice do mundo da pirataria na esperança inconsciente de ser consumido por ele, ou de superá-lo para gritar aos céus que o sangue de Roger não o ditava.
O conflito com Jinbe, o Cavaleiro dos Mares, que durou cinco longos e esgotantes dias e noites sem vencedores claros, foi apenas um prelúdio para a queda absoluta. Quando Barba Branca chegou em pessoa e varreu os Piratas Spade sem esforço algum, Ace, ciente de sua iminente derrota e da ameaça aos seus homens, impôs uma parede de fogo gigante, gritando para que sua tripulação escapasse enquanto ele ficava para morrer segurando o Yonkou. Aquela atitude suicida e protetora impressionou Edward Newgate de tal maneira que a resposta do grande pirata mudou o eixo da existência de Ace: 'Você ainda é jovem para morrer aqui... Se você quer tanto espalhar seu nome pelo mar, então torne-se meu filho.'
Capítulo 4: O Sol de Moby Dick e a Adoção pela Família
A recusa inicial de Ace a essa adoção é essencial para compreendermos sua psique fraturada. Por semanas, talvez meses, a bordo do Moby Dick, o navio almirante de Barba Branca, Ace fez centenas de tentativas frenéticas e letais para assassinar Newgate. Enquanto o Yonkou dormia, Ace atacava; enquanto estavam comendo, Ace golpeava. Em todas as tentativas, Ace era repelido sem o menor esforço. E a tripulação do navio não o odiava por isso. Pelo contrário, eles observavam as tentativas de assassinato contínuas com risos divertidos e uma aceitação acolhedora incompreensível para o jovem.
Para Ace, que vivia na constante defensiva acreditando que o menor erro resultaria em sua aniquilação pelo preconceito do mundo, a paciência búdica de Barba Branca e o amor incondicional dos comandantes, como Marco a Fênix e Thatch, eram bizarros. O conceito de família ali era genuíno. A ruptura final e a capitulação de Ace não vieram pela força bruta. Elas vieram através do perdão e da aceitação existencial plena. Quando Ace confessou, quase com lágrimas contidas e preparado para o exílio e a repulsa absolutos, que era o filho biológico do inimigo jurado de Barba Branca, a reação do colossal Edward Newgate foi simplesmente rir e exclamar que não importava quem o havia gerado, pois todos eram filhos dos mesmos mares.
Naquele exato instante trágico e eufórico, as chamas descontroladas e odiosas do jovem Ace encontraram, pela primeira vez na vida, a calmaria de uma lareira. Barba Branca forneceu a Ace aquilo que seu pai biológico jamais pôde: presença constante, afeto sem amarras, um sobrenome honrado pelo mar e uma razão palpável para viver além do simples ato de sobreviver. A tatuagem nas costas de Ace — a imensa cruz e o crânio ostentando o bigode de Barba Branca — não era um mero sinal de pertencimento gangstar, mas o maior orgulho da vida de Ace. Aquela tatuagem significava: 'Eu já não sou a sombra indesejada do demônio Roger; eu sou um filho amado pelo sol que é Barba Branca.' Ele abandonou sua ambição individualista e tomou o papel de Comandante da 2ª Divisão, dedicando corpo e alma a coroar seu novo pai, Edward Newgate, como o legítimo Rei dos Piratas.
Capítulo 5: A Sombra de Barba Negra e o Pecado do Orgulho Inquebrável
A paz, contudo, é efêmera, e os traumas primordiais não desaparecem simplesmente com abraços reconfortantes. O verdadeiro teste da psique de Ace surgiu quando Marshall D. Teach, o covarde, oportunista e sombrio membro de sua própria divisão, cometeu o pior dos pecados no código de conduta estabelecido no Moby Dick: ele assassinou Thatch, um companheiro de tripulação e irmão estimado, fugindo a bordo de um bote com a cobiçada Yami Yami no Mi.
Muitos teorizam que Ace perseguiu Teach puramente por vaidade ou por ser um cabeça-quente descuidado. Todavia, a verdade revela o quão fragilizado e atado às suas correntes Ace ainda permanecia. Para Ace, a sua existência era suportável e validada exclusivamente através do respeito e da honra em pertencer a Barba Branca. Quando Teach esmagou as regras daquela família, ele não estava apenas traindo a tripulação; estava sujando o paraíso que havia salvo Ace do desespero absoluto e do ódio sobre sua própria vida. Como Comandante da 2ª Divisão, era a responsabilidade burocrática, moral e existencial de Ace caçar o renegado. Quando Barba Branca e até Shanks advertiram que Ace não deveria ir atrás de Teach, que algo terrível espreitava no horizonte, a teimosia de Ace não se deu por um excesso de confiança pueril, mas sim porque recuar diante de uma desonra a Barba Branca significaria negar a dívida eterna de sangue que ele sentia ter com o homem que lhe dera uma casa. Ele via-se como o cão de guarda da honra de seu pai e preferiria a aniquilação a deixar o santuário ser manchado.
O embate espetacular em Banaro Island entre Ace e Barba Negra é o choque mitológico da Chama contra a Escuridão Absoluta. O fogo brilha intensamente, consome a si próprio, ilumina o ambiente ao redor, apenas para no final ser inevitavelmente tragado pelo negrume insaciável do vazio, representativo não apenas do poder da Yami Yami no Mi de Teach, mas da iminente derrocada da alma de Ace em direção ao desespero. Ace perdeu a batalha não apenas por desvantagem tática contra o poder de anulação do fruto, mas porque o universo já orquestrava sua função como o catalisador de um evento monumental.
Capítulo 6: O Silêncio Aterrorizante de Impel Down e a Espera da Morte
O aprisionamento de Ace no famigerado Nível 6 de Impel Down, a Prisão Submarina Governada por demônios venenosos, é onde a verdadeira tortura interior e o núcleo de sua melancolia se materializam. Preso em correntes de Kairoseki, mergulhado na escuridão perene, destituído de sua chama e rodeado pelos criminosos e psicopatas mais horrendos do mundo, Ace teve meses incontáveis para mergulhar nos pântanos tóxicos de sua mente. Sem as calorosas risadas do Moby Dick, sem o som do oceano batendo contra a madeira, o velho fantasma de seu ódio recrudesceu com força total.
A visita do Almirante Garp e o confronto verbal melancólico sobre o destino e o sangue são cenas dolorosas. Ace chora silenciosamente e clama a Garp para matá-lo ali mesmo. Não era apenas o terror físico de sua iminente execução pública orquestrada pelo Almirante de Frota Sengoku, mas o medo lancinante e absoluto de que sua captura deflagraria uma guerra sem precedentes e arrastaria Barba Branca e a sua família amada, incluindo seu irmão imprudente Luffy, para o abate, um holocausto de vidas em prol da redenção de um ser tão inútil. Em sua solidão, acorrentado à rocha fria, o eco antigo ressurgiu ruidosamente nos ouvidos de Ace: 'Será que foi bom eu ter nascido?' Ele acreditou que, por sua culpa, por ser portador do sangue maldito de Roger e por ter tido a insolência de desejar viver amado, todo o oceano sangraria. Ele voltou a sentir o que sentia nos tempos de Terminal Cinza, internalizando as vozes fantasmagóricas de que era a semente da morte.
Capítulo 7: O Coliseu do Desespero, O Massacre e o Amor Escancarado
Quando o relógio soou seu alarme fatal e Ace foi transferido e alçado ao alto do imenso patíbulo na praça gigantesca e gélida de Marineford, diante de cem mil fuzileiros navais de elite e dos três Almirantes supremos portadores de poderes cataclísmicos, o silêncio preencheu os mares. A declaração retumbante de Sengoku ao mundo inteiro sobre a verdadeira linhagem de Ace destruiu qualquer barreira de compaixão; foi a condenação explícita aos olhos do mundo e a revelação do 'pecado' final aos civis temerosos.
Entretanto, o mar rugiu quando o colossal Moby Dick emergiu espetacularmente de debaixo das águas, quebrando o gelo que congelava a baía. A visão de Barba Branca se erguendo como uma divindade furiosa do caos, e a invasão avassaladora liderada do céu por seu amado irmãozinho irresponsável, Luffy, provocou uma reação excruciante no coração fraturado de Ace. Preso ao patíbulo, enquanto assistia aos piratas e seus irmãos sendo mutilados, afogados, desintegrados por laser e calcinados por meteoros de magma ao tentarem resgatá-lo, o peito de Ace estilhaçou de dor existencial insuportável.
A tragédia estava escancarada. Ele não queria ser salvo, pois cada gota de sangue de um companheiro que caía tingindo a neve de vermelho martelava o sentimento de que a sua vida era barata demais para tanto custo e sacrifício. Ele gritava em desespero profundo e convulsivo do alto das correntes, com lágrimas quentes corroendo as faces ensanguentadas: 'Parem! Voltem! Me deixem sozinho! É a minha falha!' A cada espadada e cada disparo de canhão, o complexo de inferioridade e a dor profunda dilaceravam Ace. A batalha se arrastou num mar de escuridão, feridos e catástrofe colossal. Garp se recusando a agir até que fosse forçado pelas correntes do destino; Luffy ignorando exaustão física que mataria dez homens sob a droga hormonal corrosiva de Ivankov; Barba Branca levando duzentos golpes fatais pelo corpo. Tudo se encaminhava ao clímax que quebrou e, paradoxalmente, consertou a alma de Ace simultaneamente.
Quando finalmente libertado por Luffy, a alegria efêmera iluminou os rostos enegrecidos pela pólvora, e por alguns minutos sublimes, os irmãos reacenderam a esperança ao lutarem costas a costas. As chamas retornaram em seu resplendor majestoso e protetor. Mas o destino orquestrado por Eiichiro Oda precisava concretizar o amadurecimento trágico que a morte impõe.
Capítulo 8: O Julgamento do Magma e o Fim das Correntes da Linhagem
O ápice do arco, e provavelmente a cena mais seminal que moldou os rumos narrativos e emocionais da modernidade nos mangás, ocorreu pelas mãos do Almirante Sakazuki (Akainu). Sakazuki encarna a 'Justiça Absoluta', cega, impiedosa, inexorável e fundamentalista. O punho de Akainu, feito do magma vulcânico implacável que submete e calibra a destruição da terra, representou perfeitamente as vozes de ódio extremo e irracional contra a existência de Ace, os ecos distorcidos e asfixiantes daqueles moradores ignorantes, os fantasmas do ressentimento pela existência do filho do Demônio e o furor bélico das elites conservadoras.
A falha final e redentora de Ace foi, ironicamente, o subproduto imaculado de sua maior virtude, e que Akainu manipulou diabolicamente: a sua honra inquebrável por aquele que o amava. Ao ofender covardemente Barba Branca, proferindo palavras de escória para apunhalar a dignidade do pai adotivo na essência, Akainu fez com que o sangue fervesse nas veias de Portgas. A razão implorava a Ace que corresse, continuasse escapando pelo bem do sacrifício coletivo, mas o trauma emocional intrínseco foi o gatilho; sua existência havia sido justificada no mundo exclusivamente sob a tutela honrada e carinhosa de Barba Branca, então desonrar aquele título seria apagar a sua própria validade. Ele confrontou o Almirante. O fogo enfrentou o magma ardente do ressentimento puro, e sucumbiu perante o ódio fundamentalista encarnado em punhos vulcânicos destrutivos, as chamas incapazes de repelir e conter a rocha liquefeita de justiça opressiva.
No entanto, quando Akainu avançou visando não Ace, mas sim um Luffy colapsado pelo estresse existencial extremo, Ace não parou, não questionou, e não mediu as chamas de volta, seu próprio limite físico ou racional. Ace interceptou o ataque monumental com seu próprio corpo. A mão em brasa derretida perfurou integral e impiedosamente seu torso frágil e esgotado. Naquele sacrifício silencioso e dilacerador das entranhas em chamas gélidas que se apagam subitamente, todas as angústias do menino do Terminal Cinza explodiram em uma confissão íntima entre irmãos que derreteu os pilares da narrativa de Oda.
Capítulo 9: O Despertar da Própria Valia e a Morte Sorridente
Nos minutos pálidos e silenciosos após o impacto fatal ensurdecedor que suspendeu Marineford num torpor eterno e doloroso, os ventos cessaram temporariamente. O corpo destroçado de Ace escorregou suavemente pelos ombros de Luffy, seu chapéu característico caía, o colar vermelho rompido escorregava em contas infinitas ao chão empapado de lama escarlate, e o mundo inteiro prendeu a respiração ofegante ao contemplar o apagar irrecuperável do filho do Demônio. Ao perder as chamas de sua própria existência mortal e o sangue manchando a carne, as amarras paralisantes do ressentimento hereditário o deixaram livre pela primeira e derradeira vez em seus vinte escassos e vívidos anos sob o sol.
Quando ele repousou as mãos encharcadas de sangue rubro, sem ressentimentos, sem rancores da imundície que permeou a vida do lado marginal de sua criação, o seu semblante exausto, e um fio de voz enfraquecido pela agonia, balbuciavam uma descoberta universal com a essência do amor fraterno que superou as barreiras das correntes marítimas da Grand Line e dos fantasmas do Governo Mundial e do Século Perdido, a confissão irrestrita e final dele: 'Eu nunca quis honra nem ouro nem sequer renome, o único desejo incrustado em meu coração sombrio que eu queria de verdade era saber a resposta... Foi bom eu ter nascido neste mundo?'
Ele percebeu o olhar embaçado pelas lágrimas do seu pequeno irmãozinho em estado de catatonia brutal ao seu lado, contemplou a face desesperada dos amados homens bravos de Barba Branca ao fundo sob fogo pesado para resguardar as próprias memórias, todos lutando incansavelmente, vertendo lágrimas impiedosas só por causa do homem inútil chamado Portgas D. Ace. Em vez de lamentar ou amaldiçoar o destino, o homem encontrou ali, no colo encharcado da mais pura tristeza fraterna do inferno de fogo vulcânico que corroía suas costas destituídas da tatuagem paterna agora perfurada e humilhada pela brutalidade da justiça imperialista, as bênçãos celestes supremas. Seu demônio estava morto, pois, sim, as pessoas ali lutavam, o amavam e deram tudo que possuíam na Terra porque Ace tinha sim o direito absoluto, belo, sagrado e redentor de estar, mesmo que passageiro e com chamas exauridas, naquele mundo. O amor preencheu o grande buraco perfurado pelas lavas amaldiçoadas do sistema impiedoso do Almirante Alado pela fúria de seus dogmas distorcidos, cicatrizando espiritualmente o menino sombrio do lixo com compaixão cósmica eterna.
Com as chamas exaurindo, e os olhos cerrados acompanhados por um sorriso gigantesco e imortal de satisfação verdadeira nos lábios que lembravam assustadoramente a bravura inabalável de Roger, mas que traziam puramente o legado pacífico e protetor perene das grandes mães que os mares perdoam sob a tempestade implacável, Portgas D. Ace proferiu, em sua voz oscilante, palavras finais entoadas na constelação estelar das lágrimas dos grandes companheiros perdidos da vida, do navio de proa gigante do homem mais poderoso, encravadas eternamente no âmago e fardos dos guerreiros da nova era sangrenta e renascida, sua súplica humilde e bela, proferida num sorriso sublime e apaziguador diante da imensidão escura da própria mortalidade consumada antes do amanhecer claro: 'Pai, meus amigos e Luffy... Muito obrigado... por amar de verdade e incondicionalmente um homem com esse sangue vil de um demônio nas veias imperdoáveis. Obrigado... de todo o meu coração... Obrigado por me amarem.'
Ele despencou silenciosamente no abismo calmo e sorriu perante o abraço da eternidade silente da fogueira que agora já não precisava arder com hostilidade alguma ao vento cortante, abraçado pela imensa sombra quente da memória pacífica, não mais sendo Ace Punhos de Fogo, não mais um criminoso odiado, filho do rei detestado que ameaçava impérios, nem comandante cego, tampouco a aberração orgulhosa do terminal apodrecido em escárnio. No exato instante de sua efêmera passagem sublime do pó e lavas esfriadas pelas brisas frias, Ace partia pacificamente deitado entre as ruínas abaladas, sendo inteiramente, dignamente, unicamente, apenas, amado.
Capítulo 10: O Legado Esmagador das Cinzas Queimadas e O Alvorecer Silencioso
A queda inestimável do rapaz Punhos de Fogo desequilibrou todo o leme e pilar de justiça militar dogmática opressora das organizações políticas imperialistas e do submundo pirata ganancioso e escuro reinante. O preço avassalador que se desenrolou do vácuo provocado pelas suas cinzas arremessou todas as peças do grande e temível tabuleiro narrativo da Nova Era construída à beira das ondas mortíferas sem o compasso ancestral das honras gloriosas e dos duelos de espadas amigáveis e lendárias; tudo ficou visceral, real, sem volta, afundando sob o ressentimento avassalador, a paranoia bélica e a insanidade, arrastando almirantes vingativos sedentos para posições opressivas ainda maiores, abalando as estruturas dos Shichibukais oportunistas mercenários sedentos e catapultando usurpadores mesquinhos assassinos perigosos brutais como o impiedoso Teach, desprovidos de compaixão, no controle desenfreado da coroa sem méritos.
E ainda sim, contra a brutalidade desse mar obscuro forjado, o maior legado e sacrifício não foi a queda militar, porém o fogo passado e o impacto gigantesco sobre o irmão, o farol da Vontade Herdeira dos séculos que estava congelado nas trevas. Luffy precisou atravessar os oceanos do trauma excruciante enclausurado em depressões inimagináveis e estilhaçado em Amazon Lily para entender crua, real e intimamente que o mar da ambição não pouparia sequer a família amada e inocente do pior das aflições impiedosas nas garras destrutivas dos vilões com poder assustador. O sacrifício das chamas apaziguadoras que escudaram as costas desprotegidas de borracha forjaram o homem implacável que ele seria capaz e obrigado a se transformar dali a vinte e quatro meses intensos exilados. As correntes despedaçadas do passado, a proteção dos amados nakamas que Ace resguardava antes de sucumbir serviram de bússola dourada em direção a um destino maior, moldando-o invencivelmente num futuro imbatível e divino Sol da Liberdade de Nika amanhã. Ace amargou todo o sofrimento sombrio não amado por uma década de angústias e padecimentos psicológicos mortíferos para que, com o amor do seu sacrifício, no final triunfal de toda a era das trevas dos piratas sombrios, do racismo e opressões, seu amado pequeno irmão risonho suportasse sozinho as grandes tormentas inomináveis na linha de frente dos perigos esmagadores, e sobrevivesse o bastante na proa dos perigos iminentes e gigantes desfraldando a madrugada brilhante, gloriosa e calorosa para os mares outrora aprisionados. O sol extinto iluminou o caminho eterno.