Introdução
Durante literalmente centenas de capítulos e mais de duas décadas de publicação, nós, como leitores, acreditamos piamente na mentira mais bem contada do Governo Mundial: o mito do Trono Vazio. A iconografia da câmara no coração de Mary Geoise era o símbolo máximo de igualdade ilusória. Um trono perfeitamente isolado no centro do mundo, cercado por vinte armas que juravam silenciosamente, século após século, que nenhum rei, rainha ou ditador jamais se atreveria a sentar-se ali e governar o planeta com poder absoluto. Mas se há algo que Eiichiro Oda adora fazer, é desmantelar implacavelmente suas próprias instituições fictícias.
<img src="/img/teorias/imu_urano.jpg" alt="Imu-sama no Trono Vazio com Uranus destruindo Lulusia">
A revelação visual de Imu-sama, subindo lentamente os longos degraus de pedra com sua coroa pontiaguda e sua capa infinita arrastando pelo chão, para finalmente sentar-se no Trono sob o olhar prostrado e submisso dos Cinco Anciões (os Gorosei), não foi apenas um "plot twist". Foi um terremoto na fundação política de One Piece. Nós, de repente, descobrimos que não estamos lidando com um sistema burocrático e sem rosto; não lutamos mais contra uma engrenagem corrupta, mas contra um monarca absolutista escondido sob as sombras de oitocentos anos.
A gravidade dessa revelação gerou um tsunami de especulações febris. A questão central agora domina qualquer roda de discussão sobre o endgame do mangá: Quem é, física e historicamente, a figura de Imu? Por que o compassivo e experiente Rei Cobra de Alabasta tremeu até a espinha ao simplesmente escutar esse nome ecoar no Salão das Flores? E como esse monarca nas sombras foi capaz de varrer a populosa e rebelde Ilha de Lulusia do mapa e dos anais da história em um piscar de olhos? A comunidade de teóricos montou um quebra-cabeça colossal, juntando peças que envolvem cirurgias milagrosas que custam vidas, triângulos amorosos antigos com rainhas ancestrais e armas de aniquilação voadoras.
O Fundador Sobrevivente e a Ope Ope no Mi
No aterrorizante flashback do Reverie contado a partir da perspectiva de Sabo e do Rei Cobra, Cobra comete um erro fatal de curiosidade histórica. Ele revela aos Gorosei que tem estudado os antigos textos fragmentados de Alabasta e que "Imu" era curiosamente o nome de um dos Vinte Reis Fundadores que estabeleceram o Governo Mundial e a ordem dos Dragões Celestiais há exatamente 800 anos, ao final do Século Perdido.
Quando o próprio Imu interrompe a audiência, caminhando casualmente e sentando-se no Trono Vazio sob o espanto e horror de Cobra, ele (ou ela, o gênero de Imu nunca foi linguisticamente determinado de forma absoluta no japonês original) se refere a Nefertari Lily — a ancestral monarca de Alabasta — com uma brutal e perturbadora intimidade. Imu não fala de Lily como um historiador que lê sobre uma figura mítica; Imu fala dela com a frustração aguda de alguém que a conheceu, conviveu com ela, e possivelmente foi traído por ela. O tom de Imu é carregado do ressentimento pessoal de um relacionamento rompido.
Se Imu é, de fato, fisicamente o mesmo monarca fundador de 800 anos atrás, nós somos obrigados a lidar com o elefante biológico na sala: a imortalidade.
Oda é um arquiteto literário que nunca deixa ferramentas espalhadas pela casa à toa. Durante os arcos intensos de Punk Hazard e Dressrosa, ele introduziu à força um conceito mecânico muito específico e perigoso no universo através da Akuma no Mi de Trafalgar Law (e de Doflamingo): a Ope Ope no Mi. Doflamingo salivava por esse poder, revelando que a habilidade suprema e secreta dessa fruta não é realizar cortes espaciais perfeitos, mas sim a "Cirurgia da Juventude Perene" (ou Imortalidade). O custo é absoluto: o usuário atual morre instantaneamente após realizar a operação, transferindo a vida eterna para o paciente.
Narrativamente falando, você não introduz um sistema de poder capaz de conceder a imortalidade em um mundo shonen se não houver pelo menos uma figura, escondida no topo da pirâmide, que já se beneficiou dele no passado distante. Imu-sama é, sem qualquer pingo de dúvida, o candidato perfeito. Um rei ou rainha fundador implacável que, no caos do Século Perdido, forçou, enganou ou coagiu o portador ancestral da Ope Ope no Mi a realizar a cirurgia, cimentando assim seu governo sombrio sobre o globo para todo o sempre. A imortalidade de Imu não é divina; é roubada. É um produto biológico arrancado do sacrifício de outrem.
A Traição Sangrenta de Nefertari Lily
O ressentimento ardente e a repulsa de Imu pelo nome "D." e pela família real Nefertari transcendem o ciúme político e a desconfiança militar. Eles tocam em um ódio puramente visceral. Imu revela, de cima do Trono, que foi um "erro monumental" da Rainha Lily que permitiu, há 800 anos, que os Poneglyphs (as pedras indestrutíveis gravadas com a história do Século Perdido) fossem espalhados pelo mundo, caindo nas mãos de piratas, eruditos de Ohara e samurais.
Mas o que torna essa trama fascinante é a cena da Sala das Flores de Imu, onde ele brinca furiosamente com retratos, rasgando o pôster de Shirahoshi (Poseidon) e estraçalhando as recompensas de Luffy e Barba Negra, mas, crucialmente, detém uma fotografia de Nefertari Vivi e olha para ela, transfixado. Vivi, não é segredo algum para os fãs, é praticamente a cópia genética exata de Lily em aparência e espírito.
A teoria sociopolítica e sentimental aponta que, no passado turbulento, Imu, Nefertari Lily e possivelmente Joy Boy formavam um triângulo caótico (seja ele um triângulo de liderança aliancista, ou um triângulo amoroso romântico literal). Lily era um dos vinte monarcas e, Assim, nobreza máxima. Mas, em um ato final de rebeldia moral no fim da guerra que destruiu o Grande Reino Ancestral, Lily recusou-se a se juntar aos dezenove reis restantes na ascensão a Mary Geoise, renunciando ao status de Dragão Celestial. Mais do que isso: no último instante, ela virou as costas para Imu e ajudou os aliados de Joy Boy (o Clã Kozuki) a lançar os Poneglyphs pelo globo.
O ódio e o rancor de Imu pela linhagem Nefertari não é mera estratégia política de contenção; é um rancor milenar com gosto de sangue e traição pessoal. Ele tenta obliterar a linhagem real de Alabasta porque eles são a lembrança contínua de que, há 800 anos, o ser mais poderoso do mundo foi rejeitado pela mulher que amava (ou invejava).
A Coluna de Fogo sobre Lulusia e o Terror de Uranus
Se Imu já não fosse um antagonista aterrorizante apenas pelo seu poder político de comandar os cinco guerreiros monstruosos do Gorosei, os eventos trágicos de Lulusia elevaram o perigo a níveis genocidas incalculáveis.
Sabo, escondido na ilha rebelde, escuta pelos Den Den Mushi as movimentações em Mary Geoise. Ele vê os céus do Reino de Lulusia, que antes banhavam a cidade de luz, escurecerem completamente por algo colossal que flutuava morbidamente nas nuvens. Em questão de segundos, múltiplos e gigantescos feixes de luz pura rasgaram o céu. A ilha inteira, com todos os seus habitantes, florestas e montanhas, foi vaporizada, deixando atrás de si apenas um poço abissal sem fundo no meio do mar agitado (semelhante, em um detalhe que não pode ser ignorado, ao gigantesco fosso oceânico que abriga a ilha judiciária de Enies Lobby).
O que testemunhamos não foi um "Buster Call" da Marinha. Foi Imu-sama pegando um mapa-múndi no conforto silencioso de seu palácio, desenhando um "X" e declarando friamente, no estilo 1984 orwelliano: "Lulusia... nunca existiu".
Na tríade das Armas Ancestrais nomeadas em homenagem aos deuses gregos, nós já conhecemos duas. Shirahoshi, a princesa sereia que comanda os Reis dos Mares, é Poseidon. O encouraçado insubmersível de Wano é Pluton. Resta, no grande tabuleiro, apenas Uranus.
Na mitologia, Uranus é a própria personificação do Céu, o domínio sobre o topo do mundo. Uma arma ancestral desenhada com o perfil de uma nave colossal flutuante ou satélite geossíncrono, capaz de atirar feixes orbitais que vaporizam continentes instantaneamente, encaixa-se, de forma perfeita, no perfil funcional da terceira e última arma de aniquilação do arco histórico. E Imu detém os controles.
Mas uma gigantesca dúvida estratégica sempre assombrou essa dedução: se o Governo Mundial detinha Uranus sob a tutela de Imu durante os últimos 800 anos, por que não a utilizaram todo santo dia? Por que não vaporizaram a ilha base dos Piratas Rocks há 38 anos? Por que não desintegraram Laugh Tale e Wano?
A resposta teórica une Imu à genialidade atormentada de Vegapunk. A teoria aponta firmemente que Imu sempre possuiu o "hardware" e o canhão principal (Uranus), mas que o combustível original — possivelmente ligado à bizarra "Mother Flame" ou a uma fonte de energia perdida que apenas o Grande Reino original sabia sintetizar e da qual Nika era símbolo — esgotou-se séculos atrás.
Quando Dr. Vegapunk finalmente replicou ou inventou o combustível perfeito (a chamada Mother Flame, criada no reator na ilha de Egghead), ele, tragicamente e de forma insensata, enviou uma amostra ou projeto ao Governo Mundial acreditando num uso de paz ou energia. O ataque brutal e sem precedentes à Ilha de Lulusia nada mais foi do que um grotesco teste prático. Imu estava atestando o combustível de Vegapunk. E o teste foi um sucesso devastador. Pela primeira vez desde o Século Perdido, a arma definitiva está carregada, flutuando, apontada para a nuca de cada ser vivo nos quatro blues.
Conclusão: O Opositor Perfeito para o Deus do Sol Nika
Fica estilhaçadoramente claro que, em nível de arquétipos estruturais e temáticos, Imu-sama foi milimetricamente desenhado por Oda para ser o antípoda completo e contraponto narrativo absoluto do protagonista Monkey D. Luffy.
Luffy é literalmente o guerreiro e Deus do Sol (Nika), cujo coração batuca música. Ele irradia risadas, atrai a liberdade, converte escravos em heróis com seu toque e transforma a realidade dura numa borracha leve, fluida e essencialmente cômica.
Do outro lado do espelho da criação, temos Imu. Ele vive recluso num claustro silencioso cercado de gelo sombrio (a sua câmara onde guarda o Chapéu de Palha gigante), age exclusivamente através de ordens secretas, submissão e genocídios silenciosos, não demonstra um pingo de calor humano, e sua silhueta consome até mesmo as roupas extravagantes num véu negro de escuridão total e paralisante.
A futura guerra final de One Piece não será uma luta ordinária por poder marítimo ou tesouros dourados. Será a apocalíptica batalha final entre a falsa eternidade estática, congelada e absolutista do Governo Mundial, contra a efêmera, caótica, livre e explosiva Vontade de D. Imu não é um vilão. Ele é a corrupção do tempo e a morte da liberdade ambulante.