Introdução
Capítulo 1: A Gênese dos Opostos e a Sombra do Dragão Celestial Caído
No vasto, caótico e implacável panteão de tragédias magistralmente orquestradas ao longo das décadas por Eiichiro Oda na colossal epopeia de One Piece, poucas histórias de fundo e sacrifícios pessoais ressoam com tanta força emocional, brutalidade psicológica e beleza poética quanto a saga silenciosa, trágica e majestosa de Donquixote Rosinante, universalmente reverenciado e eternamente lembrado pelas lágrimas dos fãs sob o seu manto e codinome do submundo: Corazon. A sua breve, porém monumental e catártica aparição nos flashbacks gélidos e sangrentos que antecedem o clímax absoluto e esmagador do arco monumental de Dressrosa, não apenas adicionou e injetou uma camada abissal, intransponível e aterradora de complexidade dramática ao já formidável e diabólico antagonista Doflamingo, como sobretudo esculpiu, com cinzéis de dor profunda, redenção e puro amor desinteressado, o âmago psicológico e a alma destroçada de um dos personagens mais amados, misteriosos e fundamentais da nova era pirata: Trafalgar D. Water Law.
Para que a nossa mente consiga absorver, digerir e mensurar a magnitude oceânica e astronômica do feito e da existência paradoxal, desajeitada e silenciosa de Rosinante, torna-se impreterivelmente necessário e urgente mergulhar de cabeça nas águas turvas, violentas e nefastas das origens sombrias e da queda vertiginosa da imponente, temida e sagrada família Donquixote. O abismo psicológico entre os dois irmãos, nascidos sob os céus impolutos, protegidos e inalcançáveis da Terra Sagrada de Mary Geoise — o trono do mundo forjado sobre correntes invisíveis e genocídios apagados da história — começou a abrir suas fendas escuras, ruidosas e irreversíveis no instante microscópico, aterrador e divisor de águas em que o pai de ambos, Homing, um homem dotado de uma ingenuidade divina e de uma bússola moral perigosamente humanista para os padrões doentios dos deuses, tomou a fatídica e irrevogável decisão de abandonar a divindade garantida por nascença, renunciar aos privilégios incalculáveis e descer à terra enlameada, crua e sangrenta para viver entre os humanos comuns, mortais e oprimidos.
A partir dessa queda livre monumental dos céus, Doflamingo e Rosinante, partilhando o mesmo sangue nobre, as mesmas provações excruciantes e os mesmos horrores impostos pelas massas vingativas, furiosas e desprovidas de perdão, seguiram caminhos espirituais diametralmente e fatalmente opostos, forjando uma das mais fascinantes e assustadoras dualidades filosóficas, morais e existenciais de toda a narrativa nipônica. A multidão, corroída ao longo de incontáveis e asfixiantes gerações pelo ódio acumulado e pela opressão sanguinária patrocinada pela crueldade institucionalizada e arrogante dos Dragões Celestiais, não enxergou, no choro das crianças assustadas ou nas intenções gentis e tolas de Homing, a redenção dos nobres ou uma tentativa poética de comunhão pacífica entre as classes; o populacho enfurecido, portando tochas, foices e o clamor ruidoso da vingança popular, viu e sentiu puramente a oportunidade de ouro, cruel e animalesca de estraçalhar, humilhar e crucificar nas paredes gélidas de uma cabana em chamas os supostos intocáveis deuses que os sangraram por oito séculos de escuridão silenciosa.
Diante do horror de terem seus pequenos corpos suspensos por cordas ríspidas, as janelas e portas barradas, do linchamento implacável, da dor excruciante das flechas rasgando a carne inocente sob o calor infernal do fogo crepitante e das lágrimas desesperadas da mãe doente, a resposta psíquica e visceral de Doflamingo ao terror iminente e à humilhação extrema foi a ignição absoluta, destrutiva e irremediável do fogo sagrado do ódio e da promessa de retaliação em escala global; o despertar precoce, aterrorizante e monumental de seu formidável Haki do Rei, que varreu o pátio num estrondo mudo de superioridade inata, sepultou para todo o sempre qualquer resquício microscópico de compaixão e humanidade, convertendo-o de forma indelével na autêntica, grotesca e brilhante encarnação do mal supremo, caprichoso e maquiavélico que manipula, tortura e controla a vida e a morte alheia com os finos fios da escuridão.
No outro extremo dessa corda desgastada pelo sangue e pelo choro enclausurado da provação inesquecível de suas tenras infâncias desmoronadas, encontra-se a figura trêmula, assustada, ensanguentada e profundamente quebrantada de Rosinante. Em vez de permitir que o fel ardente, viscoso, cáustico e amargo da raiva profunda envenenasse de vez as correntes vermelhas de suas veias feridas pela crueldade do mundo e da plebe imperdoável, e no lugar de espelhar o sadismo incontrolável e monstruoso que germinou ferozmente e de forma avassaladora no peito orgulhoso do irmão mais velho e demoníaco, Rosinante, aos prantos de desespero silencioso, abraçou com uma força melancólica e desesperada os resquícios morais e os ensinamentos humanistas e doces do pai arrependido. Ele testemunhou a monstruosidade inata florescer sob as amarras da tortura; ele viu o exato segundo em que o sangue parou de pulsar calor para alimentar uma frieza inumana em Doflamingo. O parricídio covarde, retumbante e aterrador, o estampido seco do gatilho puxado pelas mãos de um menino com óculos escuros e alma escurecida contra a testa trêmula de seu próprio genitor, assinalou o exílio emocional, definitivo e solitário do menino Rosinante.
Ele não perdeu ali apenas o conforto de sua família fragmentada; ele compreendeu, na calada fria e chuvosa de uma terra sem deuses, que o monstro incontrolável recém-criado pela fúria não era fruto unicamente das intempéries das massas revoltosas, mas residia e pulsava perigosamente no âmago genético do seu próprio sangue. Esse é o ponto fulcral e a âncora existencial da alma de Corazon, o exato instante geográfico e temporal onde o seu caminho se bifurcou para abraçar o sacrifício. Se Doflamingo era o anjo caído que decidiu atear fogo na terra por despeito à sua perda divina e abraçou o caos supremo como regente das sombras, Rosinante transmutou-se, lenta e dolorosamente nos braços austeros, solenes e protetores da Marinha sob a tutela compassiva, estratégica e justa do futuro Almirante de Frota Sengoku, no escudo humano, silencioso e abnegado, destinado unicamente a impedir que o dragão infernal de plumas cor-de-rosa incendiasse o tecido pacífico da realidade.
Capítulo 2: O Silêncio Assustador e a Infiltração na Própria Carne
A operação letal, arriscada, excruciante e monumental arquitetada e liderada nas sombras úmidas e traiçoeiras do Novo Mundo por Rosinante não representava apenas uma mera, burocrática e trivial missão padrão de espionagem tática de coleta de dados ou infiltração ordinária a serviço das engrenagens lentas do Governo Mundial e do Quartel General da Marinha. Tratava-se, na sua mais profunda, dolorosa, visceral e nauseante essência psicológica, de uma descida voluntária e tortuosa ao próprio abismo sombrio e sufocante de onde, muito tempo atrás na sua tenra e dilacerada infância pontuada por flechadas e tochas crepitantes, ele havia escapado com a alma crivada de medo, arrastando-se para fora da loucura assassina do seu irmão.
Retornar sob o peso avassalador de um disfarce, carregar diariamente o estigma falso de mudez, envergar a maquiagem macabra de cores tristes que ocultava as suas emoções conflitantes e adentrar os portões ornamentados de sangue e crimes inomináveis da temida e próspera Família Donquixote, exigiu de Rosinante uma fortitude mental incalculável, sobre-humana e estilhaçadora. Ele precisou conviver, sorrir internamente, beber, rir silenciosamente e sentar-se à mesa redonda da barbárie ao lado de assassinos brutais, sociopatas, exilados morais e senhores da guerra implacáveis que adoravam e cultuavam Doflamingo com a veneração cega, fanática e doentia reservada aos deuses impiedosos. E o epicentro aterrador desse teatro de horrores diários consistia na obrigação de encarnar a figura de Corazon, o executivo máximo da cúpula, espancando brutalmente crianças curiosas que buscavam alistamento, atirando-as pelas janelas em lixeiras imundas sob a fachada disfarçada de um repúdio sem voz às novas gerações piratas.
O silêncio hermético, sufocante e pesado mantido religiosamente e sem falhas durante os seus exaustivos e asfixiantes anos de operação secreta prolongada, garantido magistralmente pela sua Akuma no Mi incomum e pacifista, a Nagi Nagi no Mi (Fruta da Calmaria), revela, no seu cerne poético e mecânico, uma das metáforas mais deslumbrantes, pungentes, belas e dolorosas desenhadas na arquitetura narrativa da obra. A Nagi Nagi no Mi não possuía nenhum atributo destrutivo monumental capaz de partir ilhas, abrir fendas no mar, invocar chuvas de magma, paralisar exércitos em terror congelante ou transmutar cidades em fios de cortes letais; ela oferecia, aos olhos esfomeados de poder do mundo bélico, uma utilidade ínfima, quase nula, de pura negação acústica.
Contudo, nas mãos de um espião ferido, assombrado pelos traumas ruidosos e pelos gritos alucinantes de sua infância linchada pelas massas em polvorosa e pelos estampidos letais da arma do irmão, esse fruto do mar representava o santuário solitário absoluto. A habilidade de isolar completamente todos os sons e o barulho torturante da violência ao seu redor concedia a Rosinante o luxo secreto inestimável e desesperado de suspirar o seu pranto em paz dentro da redoma invisível de chumbo acústico. Nas caladas das noites úmidas em conveses em movimento ou em tavernas barulhentas do submundo manchadas de sangue e ganância, onde as gargalhadas sádicas e os planos monstruosos do submundo floresciam entre os executivos da família, Rosinante estalava os dedos imperceptivelmente e criava para si o seu universo privado. Ali, no espaço sagrado do vazio do som, sob as suas maquiagens borradas e o cigarro constantemente queimando suas penas por sua natureza terrivelmente desajeitada, ele podia, mesmo que por instantes efêmeros, respirar ofegantemente o ar pesado da traição amorosa, articular relatórios vitais ao seu pai adotivo Sengoku e sussurrar os gritos da sua própria agonia e medo constantes sem ser dizimado e fatiado pelos fios letais da vingança familiar.
O disfarce era perigoso. O perigo esmagador dessa proximidade letal, contínua e aterradora com Doflamingo tornava o seu próprio dom do silêncio uma armadilha, uma prisão psicológica excruciante e uma sentença postergada de aniquilação física impiedosa. Doflamingo, cujos instintos de Haki da Observação perscrutavam as minúcias e as intenções alheias, confiava profunda e inexplicavelmente na pureza aparente do laço consanguíneo restrito com o irmão, ignorando a possibilidade grotesca da traição espreitando sob as penas de chumbo do seu próprio castelo. Rosinante, com cada ato deliberado de aparente fúria contra as crianças recrutas da máfia – como Baby 5 e Buffalo –, estava, na verdade, realizando um ato de expurgo solitário e desajeitado, tentando salvar almas inocentes do abismo inelutável do fanatismo que destruiria as suas vidas se ficassem tempo demais sob a sombra alada de Doflamingo. O seu silêncio forjado era, de forma brilhante, a mordaça colocada sobre a sua própria bondade desesperada e flamejante, que queimava por dentro os seus órgãos numa ansiedade asfixiante de libertar aquele ambiente pútrido da influência diabólica do irmão que ele paradoxalmente ainda amava com as memórias melancólicas e fraturadas daquele passado dourado varrido e estilhaçado pelas cinzas da perseguição e pela insanidade despertada pelo medo.
Capítulo 3: O Encontro Predestinado: A Criança Envenenada e o Tolo Mudo
A chegada repentina, perturbadora e sombria do pequeno Trafalgar Law, um menino que carregava nos seus ombros diminutos, débeis e envenenados pelo chumbo branco os horrores inenarráveis, o genocídio sistêmico implacável, o pavor pandêmico e as chamas devoradoras de sua cidade natal fuzilada da Cidade Branca de Flevance, marcou definitivamente a colisão tectônica e astronômica entre duas almas irremediavelmente dilaceradas pelo mundo impiedoso, despedaçadas pelas perdas absolutas e unidas fatalmente pela sombra pesada de Doflamingo. Law não era apenas uma criança amargurada; ele era a personificação ambulante de um ódio cego, letal e autodestrutivo, embrulhado de forma pungente em explosivos e numa doença incurável e letal – a infame Síndrome do Chumbo Branco – que o consumiria por completo em pouco menos de três anos curtos e dolorosos, marcando-lhe o fim de maneira cruel. Com os olhos arregalados, sombrios, e a respiração carregada pelo ressentimento profundo contra o universo, o menino empunhava a sua lâmina oculta em busca desenfreada pela pura, simples e irrestrita aniquilação do maior número de seres vivos em prol de uma vingança anárquica e desesperada contra o mundo que dizimou a sua adorada irmã, os seus pais brilhantes e seus pacíficos vizinhos.
Ao olhar para os olhos desesperançados de Law no lixão da Família Donquixote, Rosinante não viu um recruta em potencial promissor ou um monstro em formação. Ele vislumbrou, com um horror paralisante e um reflexo lancinante e nauseante nas águas turvas do passado, a exata, idêntica e aterradora fagulha de insanidade incontrolável, ressentimento demoníaco e dor excruciante transmutada em destruição que outrora habitara, consumira e dominara para sempre os olhos do seu irmão Doflamingo logo após a horrível crucificação na cabana e o subsequente assassinato e parricídio no meio da neve. A criança era uma bomba-relógio emocional e biológica que o Governo abandonou e o sistema envenenou, prestes a ser moldada perfeitamente na fornalha do sadismo de Doflamingo, que viu no pequeno sobrevivente vingativo da tragédia a matéria-prima rústica para forjar mais uma ferramenta de destruição global para o trono do seu império.
A facada imprevista, fulminante, covarde e ensanguentada que Law desferiu pelas costas no fígado do silencioso executivo Corazon num lapso de fúria cega representou o ponto de não-retorno, a infração suprema às regras draconianas e inflexíveis da família, cuja punição sumária imposta por Doflamingo seria, inevitavelmente, a execução imediata, sem julgamentos e sem clemência na presença de todos. No entanto, em vez de delatar o agressor ressentido ou retaliar a fúria da criança desamparada, o abnegado espião naval silenciou o evento letal com uma paciência imensa, curando os seus próprios ferimentos graves em segredo nas sombras da enfermaria clandestina, estendendo silenciosamente o primeiro véu invisível de genuína proteção paternal desinteressada que cobriria eternamente o pequeno D.
A revelação assustadora, proibida e bombástica do nome secreto contendo a letra do tabu milenar ancestral – "Trafalgar D. Water Law" –, sussurrada num instante fugaz e impensado e ouvida pelas orelhas atentas de um homem de aparência cômica, precipitou o colapso e o desmantelamento total da farsa muda mantida com estoicismo e perfeição. Quando Rosinante quebrou o seu silêncio formidável, arrastando violentamente a criança assustada para o interior protetor de uma viela isolada pela Nagi Nagi no Mi para alertá-la sobre os perigos mortais de carregar as sementes malditas, a letal inicial de tempestade predestinada do "D" na vizinhança de um genuíno, autêntico e orgulhoso membro banido da dinastia dos Dragões Celestiais de Mary Geoise, e ao expor, num rompante de urgência e afeto genuíno, o disfarce elaborado durante anos de sangue para suplicar e implorar ao menino que fugisse imediatamente da insanidade da cúpula do palácio negro para os mares livres em busca de cura médica incerta; uma ligação indelével, imortal, catártica e indestrutível forjou-se e soldou as suas almas fraturadas numa verdadeira comunhão poética.
Rosinante percebeu naquele exato segundo em que as palavras e o desespero lhe escapavam apressadamente dos lábios outrora pintados do batom avermelhado cômico do silêncio forçado, que a sua missão titânica de inteligência governamental em busca da desestabilização mercenária de Doflamingo não possuía nenhum valor se não servisse, antes de tudo, primordialmente, essencialmente, heroicamente e desesperadamente, para salvar a centelha de luz remanescente naquela pequena e doente alma obscurecida pela iminência dolorosa da morte química. A deserção arriscada com a criança pela imensidão azul do oceano desconhecido transformou a sua vida solitária em uma epopeia de expiação, amor paternal improvisado e fuga dramática sob as nuvens densas da vigilância inimiga que os espreitava do horizonte infinito e azul da Grand Line tempestuosa.
Capítulo 4: A Peregrinação Hospitalar e o Desabrochar de um Amor Paternal Desajeitado
A epopeia solitária, excruciante, cansativa e desesperada vivida pelos oceanos frios ao longo de árduos seis meses ininterruptos, cruzando marés furiosas em um minúsculo barco, consistiu de longe na mais bela, devastadora e dolorosa demonstração incondicional do amor paternal jamais transposta para as páginas da grande Era dos Piratas, marcada pelas lutas incessantes e desbravamentos grandiosos de sonhos ilimitados. Despido das máscaras, destituído dos confortos escassos da submissão militar fingida da Marinha, isolado das engrenagens da família Donquixote sob pena de morte iminente e sem os recursos de inteligência sofisticados que uma posição confortável lhe poderia conferir, Rosinante transmutou-se numa força incontrolável e incansável e heroica movida única, exclusiva e irracionalmente pela esperança minúscula e microscópica de curar as chagas incuráveis, tóxicas e purulentas da doença terminal terrível espalhada implacavelmente pela biologia celular do garoto que ele aprendeu a considerar como o seu próprio filho nas trincheiras tempestuosas da fuga desesperada e solitária por ilhas gélidas e isoladas do afeto mundial.
Hospital atrás de hospital, médico após médico, ilha após ilha desolada e apinhada de olhares desconfiados, a resposta médica gélida, impiedosa e aterradora era fatal, invariavelmente, monotonamente e catastroficamente a mesmíssima em todos os recantos: a histeria irracional. Os supostos doutores iluminados pela ciência rasgavam as suas éticas médicas milenares, recuando aos gritos esganiçados, aterrorizados e horrorizados perante o contágio estigmatizado, infundado e politicamente temido associado à mácula esbranquiçada nas mãos de Law. A reação dos profissionais de saúde, chamando exércitos cruéis para exterminar uma mera criança agonizante, acendia, invariavelmente, a ira visceral do homem cômico, culminando em atos de pura e feroz fúria em que Rosinante explodia consultórios inteiros, pontapeando mesas e espancando a ignorância daqueles falsos curandeiros covardes em nome da defesa inclemente do pequeno "monstro" assustado. O lamento desajeitado, solitário e asfixiado proferido nas sombras gélidas das ruelas abandonadas na calada de noites estreladas por um homem gigantesco de penas ensopadas agarrado num menino pálido à beira do desmaio, chorando um pranto descontrolado e suplicando de joelhos esfolados ao universo pela vida inócua e inocente esvaindo-se no chumbo negro das suas esperanças destroçadas, compõe indubitavelmente e invariavelmente uma das imagens emocionais, tocantes e tristes de cortar o coração mais marcantes, excruciantes, formidáveis e lindamente desenhadas pela genialidade compassiva e humanista insuperável de Eiichiro Oda em todo o seu vasto legado marítimo.
Foi precisamente nas frestas dessa dor contínua de rejeição global sistemática, no calor trêmulo de casacos pesados na umidade do inverno iminente e nas lágrimas silenciosas derramadas ocultamente sem despertar a criança adormecida em febre, que Law compreendeu finalmente e com choque profundo. Ele não encontrou ali na peregrinação infinita um marinheiro traidor cumprindo uma ordem estatal ou um tolo espancador cumprindo tarefas burocráticas estúpidas e sem propósitos no mar; encontrou a personificação imperfeita, atabalhoada, gigantesca e fumante inveterada que se incendiava por acidentes corriqueiros em um casaco de plumagens imensas de um pai de verdade. O coração espinhoso, repleto de lâminas e escuridão ríspida da criança cedeu devagar sob a calidez teimosa da abnegação desse tolo corajoso com lábios sempre manchados de um sorriso estranho, derretendo a neve gelada de ressentimento secular do extermínio de sua cidade.
Capítulo 6: O Sorriso Congelado e a Libertação da Alma de Trafalgar Law
O confronto inelutável no coração gelado do inverno, na tempestade e no sangue manchando a paisagem branca e alva num contraste poético, lúgubre e perfeitamente orquestrado pela natureza fria e indiferente aos sofrimentos humanos no arco clímax e avassalador de Dressrosa, carrega todo o peso monumental do ódio de nascença, toda a rejeição das doutrinas, filosofias destrutivas da linhagem familiar pervertida e a tragédia profunda não de apenas dois irmãos consanguíneos do mundo, mas de ideologias inteiras de dominação contra a liberdade. Doflamingo não possuía nas suas mãos, em nenhum instante de sua psique envenenada, a capacidade redentora ou sequer o arcabouço mínimo cognitivo emocional de compreender, mensurar ou perdoar a traição imensa, a lealdade à marinha ou a proteção compassiva, heróica e desinteressada e humana conferida pelo seu próprio irmão traidor cômico àquela mera criança ranzinza.
Enquanto Doflamingo apontava a arma com os braços revestidos no ódio escarlate perante a traição escancarada e o chumbo manchava a vida, Rosinante já se encontrava nos respiros excruciantes, rasgados e gotejantes de seus últimos momentos no mundo gelado. Escondido e espremido em pânico no silêncio claustrofóbico por baixo do imenso baú ornamentado das neves, um aterrorizado, pálido e impotente Law soluçava silenciosamente as lágrimas e a dor paralisante que a habilidade sobrenatural fantástica, mítica e compassiva de Corazon não lhe permitia ecoar para fora e alertar os deuses assassinos ao seu redor no galpão. O som foi abafado, mas o pranto foi dilacerador e destruiu a alma dos leitores; cada grito emudeceu no fundo da alma para explodir numa fúria libertadora no clímax do destino predestinado dos piratas.
No ato mais heroico, puro e devastador, majestoso e dolorido da saga naval e pirata, mesmo com o peito alvejado ferozmente, retalhado sem piedade, inundado e manchado pela dor de balas da própria carne vingativa que o exterminava com os olhos cobertos por óculos do submundo arrogantes da máfia insana, Corazon se manteve resoluto, estoicamente consciente, de pé contra a tempestade sangrenta, sustentando o seu frágil poder silenciador de Nagi Nagi no Mi nos fios finais de sua vida instável unicamente, exclusiva e desesperadamente para garantir e prolongar até a imobilidade completa que os soluços convulsivos da criança amada oculta não alcançassem os tentáculos destrutivos sádicos, mortíferos de seu verdugo fraternal.
O sorriso final, cômico, borrado de lágrimas de neve gelada sangrenta que ele dedicou na mente aos oceanos e à lembrança de Law – esteticamente idêntico, dolorosamente espelhado e poético ao próprio D das tempestades que sorri antes das execuções divinas – foi e é para todo o sempre o verdadeiro tesouro monumental que Trafalgar Law escavou do gelo. Não foi a cura da fruta mágica apenas que salvou o pequeno menino das garras apocalípticas das mortes por envenenamento e loucura do chumbo, mas sim aquele sorriso afável trágico de neve, desajeitado e indestrutível impregnado na face fria. Ele estancou e reverteu completamente a maré caótica do envenenamento odioso crônico e letal de Law contra a injustiça do sistema.
Capítulo 7: O Legado de Corazon e o D de Doflamingo
Ao desmoronar inerte na neve de um inverno sem fim sob a tempestade silenciosa nos mares do norte inóspito, e ao libertar finalmente em morte as amarras fantásticas de seu poder e permitir que os gritos viscerais e as lágrimas furiosas do garoto explodissem e abalassem a terra sem restrições com a dor da perda paterna irrecuperável que cortou as correntes celestiais invisíveis, Rosinante plantou irrevogavelmente, assustadoramente e definitivamente na grandiosa história dos mares a semente divina inabalável que acabaria num futuro épico, ensolarado, glorioso e estrondoso, com os chapéus de palha nas linhas frontais derrubando e pulverizando a falsa divindade intocável e demoníaca e o império tirânico infalível das asas rosadas de Donquixote Doflamingo.
O nome de um coração partido transformou-se no fardo sublime de justiça, de rebeldia perante a tirania intocável, de vingança temperada com nobreza e no estandarte das alianças monumentais gloriosas, transformando-se literalmente e de modo indestrutível e perene na famosa e destemida tripulação dos Piratas Coração no futuro ensolarado e glorioso, cravando para sempre, imortalizando nas páginas do mundo grandioso da nova era brilhante no mar sem donos o testamento puro e sublime do tolo e desajeitado mudo de grandes pernas que não mudou o gigantesco e brutal mundo apenas com poderes grandiosos, armas míticas ou magias arrasadoras, mas com o chumbo quente de sacrifícios incondicionais banhado pela neve gélida num abraço terno do sacrifício impagável que fez no peito de uma criança ferida brotar não uma ira devastadora inconsequente pelo extermínio passado da dor solitária infindável, mas as batidas sinceras de uma vontade livre que libertou Dressrosa para além do abismo da escuridão eterna orquestrada pelos próprios deuses falsos que ele renegou silenciosamente até a sua resplandecente morte abençoada pelas estrelas do mar de glória e aventura.
A sombra escura e opressiva do monstro de Mary Geoise que aterrorizava o submundo cedeu e desabou pelas mãos libertadoras e precisas de quem porta a tempestade prometida dos clãs D; tudo forjado, ensinado, abrigado no ventre de neve gelada no norte inóspito. Trafalgar Law carrega na sua carne manchada pela tatuagem de "CORAZON" muito mais que a glória das conquistas da sua tripulação; ele carrega as asas invisíveis redentoras de um tolo e as cores radiantes de quem mudou a engrenagem do sol para brilhar mais forte nas marés turbulentas do Novo Mundo. Assim despede-se o silêncio para abraçar as tempestades radiantes rumo à ilha de Laugh Tale sob os desígnios enigmáticos do destino incalculável da nova era, e tudo o que sobrou, e tudo o que importou no mundo gelado sangrento varrido pelo terror governamental opressor foi o abismo calmo e sereno deixado na neve pelo tolo de sorriso estranho e coração gigante abençoado que nunca disse ao mundo em vida as bravuras heróicas de espionagens incríveis, apenas mostrou no abraço quente que salvou a vida o peso autêntico da eternidade.