Ofício de Oda Leitura de ofício

O flashback vem antes da luta porque o soco precisa doer no lugar certo

A posição do flashback no arco decide se a luta seguinte é briga de poder ou encerramento de assunto. Oda quase nunca erra essa marcação.

Retrato autoral de Donquixote Doflamingo
Ilustração de Donquixote Doflamingo

Introdução

Trafalgar Law passa boa parte de Dressrosa parecendo apenas mal-humorado e obcecado. Depois o passado dele com Corazón chega e aquela obsessão deixa de ser birra de personagem para virar dívida.

A ordem em que essa informação chega é escolha técnica, e é uma das coisas que Oda faz melhor que quase todo mundo no gênero.

A marcação é sempre antes do golpe

O padrão é fixo: a obra apresenta o inimigo, mostra o dano que ele causou, e só então abre o passado de quem vai enfrentá-lo. Quando a luta começa, o leitor já sabe exatamente o que está em jogo.

Sem essa ordem, o combate seria comparação de força. Com ela, o combate é discussão sobre uma coisa que já aconteceu e não pode ser desfeita.

Quem ganha flashback e quem não ganha

Chopper recebe o dele antes de Drum virar assunto sério. Robin recebe o dela quando a pergunta do arco passa a ser se ela quer viver. Nami, Sanji e Brook recebem o deles antes do momento em que precisam decidir se ficam.

Aqui está o critério: flashback é concedido a quem vai tomar uma decisão, não a quem vai bater mais forte. É investimento em escolha, não em poder.

Doflamingo recebe o dele tarde, e de propósito

O passado da família Donquixote aparece quando o arco já está avançado, e reformula o vilão sem absolvê-lo. Ele deixa de ser um sujeito que gosta de crueldade e passa a ser um sujeito com um motivo, o que é bem pior.

Se essa informação viesse cedo, ela pediria simpatia. Vindo tarde, ela vira explicação sem desconto, e o leitor já viu demais para amolecer.

Alguns vilões não recebem nada, e a ausência também é decisão. Crocodile é apresentado sem infância e sem justificativa, e funciona melhor assim: nem toda ambição precisa de trauma para existir.

O risco de usar tanto

Um recurso repetido tantas vezes fica previsível. Quando começa um capítulo de infância, o leitor veterano já sabe que alguém vai chorar e que alguém vai morrer na página seguinte.

Oda contorna isso variando o tamanho e o lugar. Uns duram um volume inteiro, outros cabem em três páginas, e alguns são cortados no meio para voltar depois.

Ainda assim, acho que a obra abusa da fórmula nos arcos mais recentes, com passados longos empilhados perto do clímax. Continua funcionando, mas passou de tempero a estrutura de sustentação.

Preferências de privacidade

Você pode alterar estas opções a qualquer momento. Serviços necessários permanecem ativos para segurança e funcionamento do site.